
Os Estados Unidos anunciaram quinta-feira que estavam a restringir o fornecimento de água ao México, abrindo uma nova frente de tensão contra o seu vizinho do sul depois das tarifas e do combate à imigração ilegal.
"Os persistentes défices no fornecimento de água ao México, ao abrigo do tratado de partilha de água de 1944, estão a dizimar a agricultura dos Estados Unidos, em particular os agricultores do Vale do Rio Grande", afirmou o Gabinete para a América Latina do Departamento de Estado numa mensagem no X.
"É por isso que, hoje, pela primeira vez, estamos a restringir o fornecimento de água ao México (...) Os Estados Unidos vão rejeitar o pedido do México de criar um canal especial de entrega de água do rio Colorado para ser canalizada para Tijuana", na fronteira entre os dois países.
O que prevê o tratado de 1944?
De acordo com um tratado que data de 1944, o México fornece água aos Estados Unidos a partir do Rio Grande e, em contrapartida, os Estados Unidos fornecem água do rio Colorado.
Este tratado foi objeto de fricções diplomáticas no passado devido a atrasos na entrega, bem como a protestos de agricultores mexicanos preocupados com o impacto da seca nas suas culturas.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, disse esta quinta-feira que a questão era da competência das comissões de fronteiras e de água dos dois países, sem especificar como.
"Tem havido menos água. Isso é parte do problema."
Tijuana depende do rio Colorado para cerca de 90% da sua água
Em novembro, os dois países assinaram um acordo destinado a evitar a escassez de água nos estados áridos do sul dos Estados Unidos através de um fornecimento mais fiável de água do rio México.
O acordo, resultado de mais de 18 meses de negociações, foi alcançado num contexto de crescente escassez de água em ambos os lados do Rio Grande, que marca a fronteira entre o México e os Estados Unidos.
Tijuana, uma cidade na fronteira com o estado americano da Califórnia que se tornou um centro de produção, depende do rio Colorado para cerca de 90% da sua água e tem sofrido desperdícios devido a infraestruturas deficientes.
EUA encerram centro de tratamento de migrantes na fronteira
No mesmo dia, as autoridades de imigração norte-americanas informaram que começaram a desmantelar o centro de tratamento temporário de Otay Mesa, na Califórnia, depois de terem registado uma diminuição considerável das detenções na zona fronteiriça com Tijuana (México).
"No ano passado, tivemos uma média de 1.200 detenções por dia, e a maioria delas foi feita neste setor, que inclui Otay Mesa; este ano, a média tem sido de cerca de 270 detenções por dia, e isto inclui aqueles que tentam atravessar por mar, porque descobrem que a fronteira terrestre está fechada" com os agentes, disse à EFE o porta-voz da Patrulha Fronteiriça Gerardo Gutiérrez, do setor de San Diego.
A média de 270 apreensões por dia neste ano fiscal - que começou a 1 de outubro passado - envolve numerosas tentativas de atravessar a fronteira antes do início da administração do Presidente Donald Trump, mas a partir de janeiro as apreensões estão no seu nível mais baixo desde 2021.
Centro inaugurado em 2023 quando as apreensões estavam no nível mais elevado
O centro temporário foi inaugurado em janeiro de 2023, quando as apreensões ao longo da fronteira estavam no seu nível mais elevado, com mais de 250 000 por mês. O objetivo das Alfândegas e Proteção das Fronteiras dos EUA era processar até 500 pessoas diariamente no centro.
Agora, no entanto, "ao reduzir a procura de processamento de detidos, os agentes podem concentrar-se em fazer o trabalho para o qual se juntaram à Patrulha de Fronteira, que é patrulhar a zona fronteiriça", acrescentou Gutiérrez.
Decisão surge após 3 imigrantes morrerem na tentativa de entrar nos EUA
Esta decisão surge numa altura em que foi avançado que três imigrantes, dois homens e uma mulher, morreram na tentativa de entrar nos Estados Unidos através de zonas remotas e de alto risco da fronteira entre o México e a Califórnia, informou na quinta-feira o Serviço de Alfândegas e Proteção das Fronteiras dos Estados Unidos.
As mortes ocorreram em dois momentos distintos na tarde de 14 de março. No primeiro incidente, os agentes da Patrulha de Fronteira responderam a uma chamada de emergência num trilho para camiões em Cuchama, no deserto de Otay, onde encontraram duas mulheres, uma delas sem vida e a outra a pessoa que tinha pedido ajuda.
Menos de uma hora depois de as mulheres terem sido encontradas, os agentes responderam a outro pedido de socorro na zona selvagem das Montanhas Otay.
Três migrantes declararam estar perdidos e queixaram-se de sintomas de hipotermia, dificuldade em respirar, falta de água ou de comida e baterias de telemóvel fracas.
- Com Lusa