
Vivemos uma fase crítica do combate ao cancro. Segundo o “EU Country Cancer Profiles 2025”, da OCDE e da Comissão Europeia, estima-se em Portugal um aumento de 12% nos casos de cancro até 2030, com a taxa a crescer para 20% na década seguinte. O sexo masculino será o mais atingido, com uma subida de 26%, ao passo que nas mulheres o aumento será de 13%.
Trata-se de “um problema de todos”, com Gabriela Sousa, assistente graduada de oncologia médica do IPO Coimbra e CUF Coimbra, a aproveitar o mesmo estudo para destacar que “os IPO em 2021 geriram 27% de todos os novos casos de cancro, realizaram 44% de todas as cirurgias oncológicas e coordenaram 57% dos planos de tratamento de radioterapia do país”. A também presidente da Sociedade Portuguesa de Senologia sustenta que “em Portugal não existe uma verdadeira rede de referenciação específica”, apesar de a Estratégia Nacional de Luta contra o Cancro prever a criação de uma nova até 2026, “com o objetivo de tratar mais de 90% dos doentes em centros certificados”. E não crê que “possamos dizer que o mesmo cancro não é igual para todos”, mas vinca que fatores “como o tempo de espera para a primeira consulta hospitalar ou o tempo de espera para tratamentos com intenção curativa poderão fazer atrasar o tratamento atempado, geram ansiedade pela espera e poderão diminuir a probabilidade de cura”.
Vítor Neves vai ao cerne da questão: “Existem assimetrias regionais, e elas nascem como consequência dos acessos aos cuidados de saúde em Portugal.” Na opinião do presidente da Europacolon Portugal, “há uma diferença entre os grandes centros na zona litoral” e “as zonas mais afastadas” que se reflete também nos rastreios. Atualmente, “30 pessoas por dia morrem de doenças digestivas”, com o responsável a enfatizar que cada vez mais há um “aumento dos cancros jovens nestas patologias”.
Prevenção
Existem “determinantes demográficos, sociais, económicos e dos cuidados de saúde” que, segundo o diretor de Serviço de Oncologia Médica do Hospital do Espírito Santo de Évora, Rui Dinis, “penalizam determinadas regiões, fustigadas pelo envelhecimento e privação socioeconómica, que merecem assim respostas e estratégias específicas”. Apesar de tudo, “o Alentejo possui uma mortalidade padronizada por cancro mais baixa em comparação com regiões mais urbanizadas, como a Área Metropolitana de Lisboa”. Perante este cenário, é essencial “promover a equidade e a literacia”, sobretudo quando em Portugal “a despesa de saúde destinada à prevenção foi apenas de 1,9% em 2020, muito abaixo da média da União Europeia, de 3,4%”.
Para “mitigar a condição ultraperiférica”, Ana Paula Vieira, diretora do Serviço de Oncologia Médica do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira, explica que, por exemplo, “quando os doentes precisam de ser deslocados para Portugal continental”, beneficiam de um serviço que “assegura o agendamento das viagens, transporte, alojamento e refeições, tanto para o doente como para um acompanhante, sem qualquer custo e independentemente do escalão social”. Outro desafio “é a comunicação” com “os centros de referência”.
No cancro “qualquer segundo conta”, resume Cláudia Fraga, presidente da Associação MOG — Movimento Oncológico Ginecológico, para quem o acesso aos clínicos e aos rastreios públicos é “essencial para o diagnóstico precoce”. Por outro lado, “quando estão em causa medicamentos inovadores, o acesso é muito mais rápido no sistema privado”, algo que deve mudar, defende, revelando que, após uma petição pública apresentada à Assembleia da República, o “Infarmed aprovou financiamento para um dos fármacos que não existia no público”. E reforça: “Nem todos têm recursos para aceder à medicina privada.”
3 Perguntas A
Joana Marinho
Oncologista
“A cobertura não é igual”
Há assimetrias no acesso aos cuidados de cancro em Portugal?
A localização geográfica pode afetar um pouco o acesso aos cuidados de saúde. Nós sabemos isso. Sobretudo no que toca aos médicos de família, a cobertura regional não é igual. Isso afeta a forma como os doentes oncológicos são encaminhados.
Então, o mesmo cancro pode não ser igual para todos?
O mesmo cancro é igual para todos, mas o tratamento pode ser diferente de um sítio para outro. Por vezes, um doente tem de percorrer mais quilómetros, é o principal impacto. E há cirurgias que só podem ser feitas em centros de referência, não há volta a dar.
Estamos a dar os passos certos para combater as diferenças?
Sim, em termos de cuidados de proximidade. Nos últimos anos tem acontecido uma aposta em dotar os hospitais mais periféricos de serviços de oncologia para os doentes fazerem certos tratamentos. Está a ser criada também uma nova rede de referenciação, que sabemos que temos de afinar.