
Na passada sexta-feira, um sismo de grande magnitude atingiu Myanmar e a Tailândia, deixando um rastro de destruição. Este evento serve de alerta, obrigando à reflexão sobre a vulnerabilidade de muitas regiões do mundo perante desastres naturais.
Enquanto países como o Japão investem há décadas em sistemas sofisticados de monitorização e resposta, outros, como Myanmar, enfrentam desafios associados à escassez de infraestruturas, recursos e planos de contingência eficazes. Esta desigualdade revela-se fatal quando a terra treme, revelando a fragilidade da preparação e da capacidade de lidar com desastres naturais.
Neste contexto, impõe-se a pergunta: E se fosse em Portugal? Estaríamos preparados para enfrentar uma tragédia semelhante? O sismo de 1755 em Lisboa demonstrou, de forma dramática, as consequências devastadoras de um desastre sísmico em território nacional. Embora tenha havido avanços na construção de edifícios mais seguros e na implementação de planos de emergência, muitos dos edifícios antigos e das zonas urbanas mais frágeis ainda não estão preparados para resistir a um grande sismo. No entanto, a verdadeira questão que se coloca é se estamos a educar a população e a fortalecer a resiliência social para saber reagir aos desastres naturais e, nomeadamente, ao risco sísmico.
No limite, num sismo de grande magnitude, os meios de socorro de proximidade poderão também colapsar, pelo que caberá ao cidadão estar preparado para se salvar e ajudar os outros. O Eurobarómetro Especial da Comissão Europeia (2024) sublinha que a consciência do risco e a preparação dos cidadãos são fatores cruciais para a construção de uma União Europeia resiliente, capaz de responder eficazmente a um amplo espectro de catástrofes.
Uma população bem informada está mais bem preparada para adotar práticas preventivas, participar ativamente em iniciativas de resiliência comunitária e apoiar ações oportunas e eficazes de resposta à emergência. Em Portugal, é essencial uma aposta consistente na educação e na sensibilização pública. A preparação começa pela compreensão do que é o risco sísmico, como se manifesta e quais as melhores práticas de segurança a adotar. Em muitos casos, a população portuguesa não tem plena consciência dos riscos sísmicos a que está exposta, limitando a sua capacidade de reação.
Num estudo recente que realizei, verifiquei uma discrepância preocupante entre a perceção do risco sísmico por parte dos cidadãos e o risco real a que estão expostos. Esta subavaliação pode comprometer seriamente a eficácia da resposta da população em caso de catástrofe, devendo o risco sísmico ser integrado nas campanhas de sensibilização do público, nas escolas e nos meios de comunicação social.
A preparação eficaz exige a realização de simulacros de sismo frequentes e realistas, reproduzindo, o mais fielmente possível, a experiência de um sismo. Durante estes exercícios, as pessoas podem aprender a identificar os pontos seguros no interior dos edifícios, como agir em locais públicos e como reagir a situações específicas, como derrocadas, incêndios e interrupções de serviços essenciais.
Outro ponto crucial é a capacitação das famílias para responderem adequadamente a um sismo. Apesar de, em muitos locais – sobretudo nas zonas mais antigas –, as casas não serem construídas com medidas antissísmicas, é possível tomar algumas medidas para melhorar a segurança nas habitações, como a fixação de móveis pesados nas paredes e o afastamento de objetos que possam comprometer as zonas de passagem. É também fundamental ter um plano de evacuação claro, em que todos sabem para onde ir, como comunicar em caso de separação e onde se abrigar em segurança, assim como kits de emergência que incluam bens essenciais: água, alimentos não perecíveis, primeiros socorros, lanternas, pilhas, medicamentos, entre outros.
A tragédia que atingiu Myanmar e a Tailândia deve ser um alerta para continuar a investir em sistemas de monitorização e resposta, atualizar as infraestruturas existentes e promover uma cultura de prevenção e preparação. O desenvolvimento, em Portugal, de uma cultura de resiliência comunitária, onde as pessoas sabem que podem contar umas com as outras, é vital para mitigar o impacto das catástrofes naturais. A solidariedade, a entreajuda e a união da comunidade podem não só salvar vidas, como também contribuir para uma recuperação mais eficiente e humana após o desastre.