
Caiu o céu sobre a Visma-Lease a Bike esta terça-feira à tarde, no final da clássica Através da Flandres, na Bélgica. Depois de colocar em prática uma estratégia vencedora, isolando definitivamente os seus corredores, Wout van Aert, Tiesj Benoot e Matteo Jorgenson ainda a 70 quilómetros da meta, o trio encontrou Neilson Powless em fuga e levou o norte-americano para discussão da vitória ao sprint.
O corredor da EF Education não foi submetido qualquer ataque pelos adversários em superioridade numérica, devido a uma aposta da equipa neerlandesa na velocidade final de Van Aert, mas cuja responsabilidade o belga já assumiu. Com espanto, o Van Aert foi derrotado por Powless, que celebrou, incrédulo, a vitória que o próprio classificou como a «maior» da sua carreira.
Após a corrida, o ambiente na Visma era tenso e de enorme frustração e Wout van Aert foi disso rosto e voz. «Estou extremamente desapontado... Sinto-me responsável por este resultado e responsável por não ter terminado o trabalho da equipa. Queria muito esta vitória, queria-a enormemente. Tomei a decisão muito cedo de que queria disputar o sprint. Só queria que o Tiesj [Benoot] e o Matteo [Jorgenson] controlassem a fuga e me levassem para a linha com o Neilson [Powless]. Mas foi muito egoísta... Tive medo de me encontrar numa situação em que não seria capaz de lutar pela vitória, e isso é um grande erro», admitiu o belga.
E continuou o lamento: «Devíamos ter jogado em equipa e aumentado as nossas hipóteses juntos, em vez de apostar tudo no sprint. Tive cãibras no sprint. Tive um ano bastante difícil, também recebi muitas críticas... e senti a necessidade desta vitória como resposta. O cenário era quase perfeito na aproximação à meta...», contou.
«Mas estava com medo, é parvo dizê-lo, mas estava com medo de ficar para trás quando um colega de equipa atacasse. Isto não sou eu, esta não é a minha personalidade. É uma decisão que vai contra a minha natureza, e é por isso que estou tão desapontado», concluiu Van Aert.
Jorgenson: «Tomámos a decisão errada»
Questionado sobre a velocidade do seu compatriota, Jorgenson afirmou não estar surpreendido. «Não, não diria que é uma surpresa. Eu conheço o Neilson, sei o quão rápido e explosivo é. No carro [da equipa, o diretor desportivo], a decisão foi manter o ritmo em vez de atacar. É uma escolha que fizemos, porque não estávamos totalmente confiantes sobre a vantagem que tínhamos para o grupo perseguidor a certa altura. Afinal, foi a decisão errada», admite o vencedor da Paris-Nice.
«A cerca de 10 quilómetros do final, tomámos a nossa decisão. O Powless ajudou-nos sempre nos revezamentos. Mas estávamos muito nervosos por causa do vento contrário e que o grupo de trás pudesse alcançar-nos. Por isso, decidimos usar o Tiesj [Benoot] e eu e jogar um pouco mais com o Wout. Como disse, foi um erro. Nove em cada dez vezes pensas que o Van Aert ganha aquele sprint. Foi o que pensámos», concluiu.
Benoot: «Nunca pensámos...»
O terceiro elemento da Visma, Tiesj Bennot também se referiu às incidências da corrida que terminou mal. «Há deceção, claro. Mas também é um grande alívio termos conseguido aplicar novamente as nossas táticas. Penso que as executámos quase na perfeição... até à meta. Decidimos apostar no sprint com Wout, mas talvez tenha sido também a nossa maior fraqueza. Depois do que aconteceu aqui no ano passado [queda grave de Van Aert], todos queríamos ganhar. Em retrospetiva, deveríamos ter atacado Nielson nos últimos 5 quilómetros», admitiu o belga.
«É bastante claro. Em nenhum momento pensámos que o Nielson poderia vencer o Wout num sprint. Nos últimos 10 quilómetros, não parecia possível. Estávamos convencidos da nossa estratégia. Quando se termina em segundo, terceiro e quarto, obviamente que se quer ganhar. Devíamos ter ganho. Mas há muitas equipas que devem estar mais desapontadas do que a nossa», disse Benoot.
«Estávamos confiantes, mas o Nielson é um ciclista muito forte. Não é lento no sprint e esforçou-se menos do que nós durante a fuga. Colaborou no final, mas sempre um pouco menos. Talvez tenhamos levado a situação um pouco de ânimo leve. Nunca tivemos sequer um minuto de vantagem sobre o grupo perseguidor, por isso tivemos de colaborar. Mas nos últimos 5 quilómetros, deveríamos ter atacado, isso é certo. Acho que todos queríamos ver o Wout ganhar. Se repetissemos a corrida, poderíamos cometer o mesmo erro novamente», acrescentou.