
Foi, no mais recente episódio do podcast da SIC, O Amor é a Razão, 'comandado' por Renato Godinho, que Heitor Lourenço explorou publicamente uma das suas grandes paixões e sob a qual gosta de levar a sua vida: o budismo. O caminho até esta filosofia espiritual foi longo e teve no seu centro a procura de respostas por parte do ator. Na verdade, foi desencadeado por um episódio vivido na altura pelo também comentador do programa da SIC Caras, Passadeira Vermelha: a morte de uma colega.
Heitor Lourenço recuou no tempo e recuperou esta memória triste que aconteceu ainda nos seus primeiros anos de faculdade, num momento em que o ator garantia andar "num estado de graça" e "na primavera da vida". Porém, um embate duro, que envolve uma perda de vida, levou a que o comentador social começasse a percecionar que, afinal, o sofrimento era real e existia. Inevitavelmente, foram aí que se levantaram as perguntas mais difíceis que só mais tarde viriam a ser respondidas.
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No centro do seu pensamento estava, naquele período, uma jovem de 18, 19 anos, chamada Catarina. Uma mulher "muito bonita", "com uns olhos azuis lindos", "de uma suavidade, de uma doçura, de um encanto", descreveu Heitor Lourenço em conversa com Renato Godinho. "Estávamos todos no primeiro ano de Psicologia. Eu estava a descobrir o que era o teatro e estava a descobrir também que tinha muitos amigos na faculdade", continuou a contextualizar o ator.
"Fomos para férias. Ela era da ilha da Madeira e a Catarina, uma mulher extraordinária, uma colega extraordinária, linda, doce, já repeti várias vezes isto que é para enfatizar, porque realmente é a imagem que eu tenho dela na cabeça, ela não voltou, ela teve um acidente, ela morreu no primeiro ano da universidade", relatou o comentador o trágico evento que viria a ficar marcado, para sempre, ao longo da sua vida.
"Aquilo para mim, no estado de sensibilidade que eu estava, foi um tirar de todos os tapetes que eu poderia ter, que eu tinha ou que eu procurava ter debaixo dos pés. De repente fiquei sem nada", desabafou logo de seguida, refletindo sobre o quão até àquele momento "estava habituado" a uma "progressão", na qual a 'lei da vida' era a que os avós sobrevivessem aos netos e os pais aos filhos e não o contrário. "Isso baralhou-me muito", confessou.
Para Heitor Lourenço, a morte de Catarina, que aconteceu precisamente num momento em que o ator estava a viver uma fase não só de descobertas como de alegrias, abalou profundamente as suas crenças e perceções sobre a vida. "Se isso podia acontecer a ela, também poderia acontecer a mim. Então se poderia acontecer a mim, qual era o sentido? Qual era o sentido da minha existência se no dia a seguir ela poderia acabar? Qual era o sentido dos meus planos, da minha alegria, de todas as coisas, se no dia a seguir tudo poderia acabar como acabou com a Catarina?".
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Ainda em entrevista no podcast da estação de Paço de Arcos, o comentador social explicou que passou posteriormente muito tempo da sua vida a refletir sobre a sua existência e a dos outros. "Lembro-me de uma vez estar no trânsito e olhar para o lado e perceber que todas aquelas pessoas que estavam ao lado também poderiam sentir aquilo que eu estava a sentir e também tinham aquele sofrimento e aquela iminência de tudo acabar e da vida. Às vezes nem é preciso acabar, é dar um trambolhão qualquer", exemplificou ainda, revelando que graças a este episódio e às consequentes reflexões sente hoje, ao olhar para trás, que teve "uma espécie de depressão".