
Na mitologia grega, Dédalo, o arquiteto do labirinto de Creta, tinha construído umas asas para o seu filho, Ícaro, voar. Porém, não poderia usá-las para voar muito alto, perto do sol, sob o risco de as destruir. Ícaro, fascinado pelo ímpeto de conseguir voar, aproxima-se do sol que destrói as suas asas, precipitando a sua queda fatal sobre o mar.
Jamie tem treze anos. Habita o espaço fronteiriço entre infância e adolescência: a puberdade, lugar selvagem caracterizado por períodos de confusão, força, interrogação, perda. A história de Jamie vem perturbar as mentes, evidenciando as turbulentas exigências desse mesmo período.
As inquietações retratadas nos quatro episódios representam várias problemáticas, ilustradas através das relações multidimensionais, onde se evidenciam: a relação entre adolescentes e os que representam as figuras paternas: pai, mãe, escola, professores, polícia; e as relações entre pares, sobressaindo as dificuldades enfrentadas pelo desejo de pertença ao grupo, os riscos da exclusão e humilhação, os sentimentos de revolta e raiva.
Nenhum personagem fica a salvo das intrincadas e violentas relações, internas e externas, onde Jamie protagoniza o Ícaro da atualidade, cego pela força pulsional transformada em atos destrutivos.
Múltiplos paradoxos são representados pelos personagens nas relações entre si, mas sobretudo na relação consigo mesmos. Tanto o agente de polícia, como o pai de Jamie, se confrontam com as suas próprias limitações no seu papel paterno, questionando-se se estarão a “fazer o suficiente” na relação que mantêm com os seus filhos adolescentes.
Estes momentos apelam a que qualquer pai/mãe se reveja nas suas próprias interrogações, que são, na verdade, mais complexas do que os retratados. Prendem-se com os desafios gerados pela transformação profunda que pais e filhos vivem durante a adolescência, sendo este um período que se prolonga temporalmente, assumindo variadas formas e obrigando necessariamente a adaptações vividas convulsivamente.
Vemos também que a escola, através dos vários personagens, ao mesmo tempo que tenta assumir uma posição compreensiva e empática, revela igualmente uma tremenda incapacidade em conter situações de desespero e desamparo, aqui retratada na cena com a jovem que revela não poder sentir-se compreendida ou ajudada a fazer face à sua dramática vida. A escola revela ainda incapacidade na contenção de manifestações de agressividade e violência protagonizadas pelos alunos, quando observamos que, na sala de aula, professores são humilhados por alunos que desprezam o seu papel de autoridade. Os jovens deste episódio parecem, assim, perdidos e sós na sua arrogância juvenil face às tentativas dos adultos em penetrar o seu mundo.
A relação paradoxal é igualmente vivida entre as personagens principais. Quando Jamie pede ao pai que esteja presente no momento em que é interrogado, sabemos que a iminente revelação irá expor o pai à violenta verdade sobre o filho. Neste pedido vislumbramos os resquícios da criança pequena carente da presença e proteção do pai, enquanto que o momento da revelação força o pai a viver o desaparecimento dessa mesma imagem. Réplicas de tais momentos de perda da idealização encontram-se presentes ao longo de todo o processo de adolescência, obrigando ao luto da infância do filho por parte dos pais, e ao luto dos pais infantis, por parte dos filhos. A possibilidade de elaboração de tal processo irá depender de múltiplos fatores, internos e externos. Ao matar a jovem colega, Jamie perpetra simultaneamente um acto violento e irreparável contra si mesmo, cruzando irremediavelmente a fronteira intransponível.
Os movimentos presentes na luta interna entre facetas “criança” e facetas “adolescentes” vão colorindo os episódios da série, revelando a sua apoteose no terceiro episódio, quando a personagem da psicóloga tenta cumprir o que parece tratar-se de uma perícia forense. Aqui é-nos permitido assistir à multiplicidade de transformações da personagem Jamie: momentos em que exibe extrema fragilidade e impotência são abruptamente substituídos por sentimentos de terror ou fúria descontrolada.
Observar as explosões descontroladas permite-nos vislumbrar a queda de Jamie dentro de si mesmo. Jamie procurará nesta técnica um colo, um abrigo para o seu desamparo? Não recebendo a compreensão e empatia de que sente precisar, transforma a sua fragilidade em ataque ao outro, dando a Jamie a oportunidade fugaz de não contactar com a sua própria impotência. Pela primeira vez é-nos oferecida a possibilidade de assistir à sua poderosa transfiguração, permitindo questionar-nos se terão sido esses mesmos sentimentos que o terão invadido no ataque à jovem adolescente: a incapacidade de encontrar dentro de si a contenção que aplacasse a emergência de agir os sentimentos de humilhação, raiva e destruição.
A história de Jamie confronta-nos ainda com outras vidas reais, próximas ou distantes. Traz à tona histórias das próprias adolescências, o período da longa e exigente viagem: o tenebroso labirinto do Minotauro. Tal trajecto, compulsivo e solitário para qualquer um, conduz a lugares desconhecidos e assustadores. Na mitologia grega, o herói Teseu apenas consegue percorrer o labirinto, escapando a ser devorado pelo Minotauro, seguindo o Fio que a princesa Ariadne tecera.
Será necessário, ao longo da vida, especialmente na infância, ajudar os filhos a tecer os seus próprios fios de Ariadne, permitindo-lhes percorrer o retorcido e desafiante percurso labiríntico das suas adolescências.