
Centenas de milhar de pessoas participam esta sexta-feira em protestos e greves na Grécia, no dia em que se assinala o segundo aniversário do desastre ferroviário que matou 57 pessoas no vale de Tempe, a 28 de fevereiro de 2023. Há voos, transportes marítimos e ferroviários paralisados e as manifestações em curso obrigaram à vigilância da polícia antimotim. O descontentamento foi espoletado pelas conclusões dos especialistas que atribuem o acidente à "falta de supervisão e grandes falhas sistémicas" e às suspeitas crescentes de encobrimento político das responsabilidades, o que colocou o primeiro-ministro, Kyriakos Mitsotakis, no centro da contestação. Em cartazes na praça central Syntagma, em Atenas, lê-se: "Governo de assassinos."
As vítimas mortais, quase todas estudantes, perderam a vida quando um comboio interurbano colidiu de frente com uma locomotiva de carga. Foi o pior acidente ferroviário da história da Grécia. Um relatório de 178 páginas divulgado na quinta-feira por um comité independente referiu a "possível presença" de um "combustível desconhecido", alegadamente produtos químicos explosivos não reportados, que terá provocado a enorme explosão que se seguiu ao embate.
Estão a ser realizados protestos em 200 cidades e vilas da Grécia. Comunidades da diáspora, desde o Canadá até à Austrália, anunciaram manifestações semelhantes. Todos os voos internacionais e domésticos foram cancelados esta sexta-feira, quando os controladores de tráfego aéreo se juntaram a marítimos, maquinistas, médicos, advogados e professores numa greve geral de 24 horas em homenagem às vítimas do acidente. Pelo país, os negócios fecharam e os teatros cancelaram as apresentações.
De acordo com o jornal inglês The Guardian, nos subúrbios de Atenas, grupos de todas as idades dirigiram-se para o centro da cidade com cartazes que diziam “Eu não tenho oxigénio”, um slogan dos protestos que ecoa as últimas palavras de uma mulher numa chamada para os serviços de emergência. Muitos alunos foram para a escola vestidos de preto, um símbolo de luto.
Desde que assumiu o cargo em julho de 2019, Mitsotakis, um ex-bancário, não tinha enfrentado tamanha oposição. O descontentamento prende-se também a resposta ao acidente, especialmente a decisão de limpar logo o local, remover destroços que incluíam provas vitais e restos humanos, e cimentar a área, que fez crescer a sensação de encobrimento por parte do governo.
As acusações de interferência política na investigação foram agravadas pela lentidão com que a justiça tem sido aplicada: ainda não houve julgamento e nenhum responsável governamental foi alvo de censura ou responsabilizado pela tragédia.